Diferença
e repetição
Ninguém mais vivia em rochas.
Regulus observava o ecrã à sua frente, que tanto podia indicar vastidão como
ser a mais simples representação de uma grande sombra vista de perto. As
galáxias, distantes, formavam brilhos diminutos. Havia poucas galáxias visíveis
dali.
Todos os espectros
detectavam radiações. Todos os mais de vinte e três mil utilizados. Havia as
galáxias negras, os corpúsculos vazios, os padrões desses vazios indicando
ralos de partículas e de ondas.
Regulus
percorreu, com sua percepção, por todos os pontos sensíveis do GLOBO, que era
seu corpo. Tinha setenta e dois quilômetros cúbicos e parecia um liso
vidro-plástico, oco em algumas partes.
É tudo igual.
Cérebros orgânicos há eras
sofreram transformação. Seus processos e conteúdos, suas estruturas,
percorrendo diferentes realidades quânticas, reunidos num corpus.
Sou eu.
Essa reunião era um
substrato de dezenas de bilhões de seres de uma espécie. Seres que não vivam
mais em rochas. Eram do cosmos, sem planetas. Abandonaram suas arcas de metal e
partiram e se fincaram, não longe… mas num só espaço. O tempo fizera as
galáxias se afastarem. Era uma época gelada.
Regulus
era o corpus de todas aquelas mentes,
mas só se tornara realmente único quando alcançou o potencial das crianças não
nascidas de inúmeras gerações. Nasceu para pôr fim à morte, ao frio, ao escuro.
Em busca da fonte de todas as almas. Entretanto, só via aquele ecrã, à sua
frente, costas, interior e exterior.
- Memória!
Uma
voz em pensamentos acabara de se manifestar, sem boca, cordas vocais nem ar.
Quatrilhões de constelações formavam glóbulos, oito, um octógono.
- Fonte das almas.
Mais
uma vez, dentre diversas vezes por um tempo quase infinito, a busca pela origem
de toda a consciência – a Fonte das Almas ou, simplesmente, a Fonte.
Nada.
Foi quando eu cheguei.
***
MEMÓRIA-ABSTRATA
Fa0.016P:
200
milhões de eras anteriores, aproximadamente, despertei. Despertei dos
pensamentos que me distraíam naquela minha caminhada até a cantina de nossa
casa. Minha mãe não estava, nem meus dois únicos sobrinhos, que vivam conosco
desde a morte do meu irmão e sua esposa.
A
rádio de meu quarto-cabine tocava speran,
sintonizado à única estação que nos chegava. Sentei-me por perto, ouvindo
aquilo, enquanto mexia em um prato de cereais. E lembrei-me da decisão de minha
família, quando ainda éramos pequenos.
Vivíamos
na megalópole PAN-EARD, a mais antiga, localizada em algum lugar entre o
sistema solar da Terra e Alpha-Centauri. Era a mais antiga e a mais afastada do
CONGLÔMERO, o centro da civilização ressuscitada, como diziam os Maestros,
espécies de professores influentes.
O
CONGLÔMERO reunia, desde o fim das colônias rochosas (em planetas com condições
originalmente parecidas com as da Terra) – de nossa inabilidade em terraformar,
e em nossa estagnação tecnológica que impediu o invento de naves que superassem
a velocidade da luz –, dezenas de bilhões de pessoas, além de cachorros, gatos,
pequenos mamíferos e insetos. Era uma reunião de mais de cinquenta megalópoles,
com exceção de PAN-EARD, a mais antiga e única localizada ainda no interior da
Via Láctea.
Uma
civilização inteiramente no espaço, com os iates espaciais para os ricos, as
megalópoles para a vasta classe média, e nós da periferia da megalópole mais
atrasada, uma imensa arca espacial imóvel, ou quase imóvel, imersa num mar de
asteroides, de onde se retiravam metais e outras substâncias.
Quando
criança, ficamos sabemos do plano para a Grande Reunião, em que até mesmo
PAN-EARD iria transferir os dez milhões de humanos para o CONGLÔMERO, a muitos
milhares, milhões de anos-luz (não sei dizer), entre Via Láctea e Andrômeda
(“como” eu não sei). Minha família, e mais algumas centenas de outras nos
recusamos. Ficamos para trás, e estávamos em paz.
Meus
pensamentos bailavam perante uma imagem absurda da carcaça de PAN-EARD, quando
percebi que o som assumiu uma voz:
- ESTAÇÃO LIVRE/ NOTÍCIA URGENTE: Recebemos
informação sobre o CONGLÔMERO!
Era
o que eu esperava. Infelizmente, meus parentes não estavam em casa.
- Há um novo plano de extração. Não nos foi claro.
Fomos informados por um mensageiro… sdjfe… daies…
O
som estava ruim, depois retornou de vez:
- …baseados nessa crença, e levando em prática…
Desejam TODOS juntos no CONGLÔMERO. Até a última alma!
Com
o passar dos dias eu e meus familiares ficamos entendendo melhor sobre a
EXTRAÇÃO. Isso após várias reuniões presenciais em LIMA, instalações de uma
antiga estação de mineração em um grande asteroide próximo. Lembro-me de uma
reunião:
- Conselheiro Vatehl, por favor, o que está
ocorrendo?
Com
todos os presentes, o Conselheiro tomou o microfone, rústico, de Ernst, o
difusor:
- A EXTRAÇÃO é mais um projeto absurdo do
CONGLÔMERO. Primeiro, há décadas, queriam tomar nossa liberdade, tomar nossos
corpos, nossas posses, tudo o que somos, para aquela abjeta “reunião”… Agora,
alegam que precisam até da “última alma”. Em resumo a tudo o que disse desde
cedo: querem nos caçar!
Não
me interessava a natureza exata daquela decisão do centro de poder. Não
entendia mesmo porque esse tipo de medida. Porque essa necessidade de, diante
de dezenas de bilhões de pessoas, quererem que nós, eremitas do cosmos, livres
das leis do CONGLÔMERO, tivéssemos de nos juntar a eles. O que eles queriam de
nós? Não estava tudo bem? Por que não nos esqueciam?
Não
conseguia mesmo entender o motivo de nos quererem à força. O fato é que
chegariam nos próximos meses e teríamos que estar preparados. Meu sobrinho, que
chefiava um grupo de defesa, chegou a me confidenciar, dias depois, que estavam
pensando se não seria mais útil, frente a nossa inferioridade técnica, fugirmos,
simplesmente.
- Não, Max. Não estou disposto a fugir – disse, na
época.
- Mas, tio. Certamente não conseguirão nos tomar,
sei disso diante de nossa fúria. Porém, estaremos todos mortos! Do que adianta?
Será que não deveríamos nos esconder, talvez, nas cercanias da velha Terra?
Onde quer que for?
- Não posso aceitar. Assumi esta posição de
comando, e pretendo exercê-la até o fim. Se iremos morrer, morreremos. O que
vale, nossos corpos ou nossa dignidade? O cosmos fez nossos corpos de carne
para que treinássemos o espírito!
Ele
não conseguiu me demover. Continuamos suportando o que tínhamos que suportar,
até a chegada dos caçadores. E eles chegaram.
Pelo
que vimos eram aquelas naves controladas por cérebros quânticos. Não teriam
mesmo a pretensão de nos caçar pessoalmente, claro. Essas naves ficavam
estacionadas sempre a meses-luz de nossa localização, e começavam a aparecer,
com seus cascos negros e seu brilho avermelhado numa de suas pontas.
Estacionadas
ao longe, enquanto tentávamos imediatamente atingi-las, fomos pegos por uma
tempestade não apenas eletromagnética, mas também pentadimensional. Não vou
explicar os detalhes técnicos, a questão é que apenas nossas forças de reserva
funcionavam. Ficamos com nossas naves paralisadas. Mas, nunca iria desejar
fugir, nem a maior parte de nós.
***
Após três semanas
do Tempo-Padrão:
Qual
o objetivo de tudo isso? Todos nós, sobreviventes, capturados, no interior
daquelas naves desalmadas! Presos, estancados, naqueles berços de adultos,
forçados a um sono antinatural. Ah, se eu pudesse me soltar! Ainda não durmo,
cercado por robôs naqueles corredores. Éramos milhares aprisionados. Se alguém
fugiu, fugiu para a morte, porque, no espaço inclemente de estrelas, não há
insumos.
Eu
seguia observando tudo. Usei todo o meu treinamento de Sonâmbulo. Pouca gente
daquela geração conhecia, mas, quando era mais jovem, aprendi, com meu grupo, a
retirar a minha consciência de meu próprio corpo e espionar recintos que nos
eram proibidos. Fazíamos isso numa versão decadente de uma técnica antiga,
muito usada nos tempos dos Estados-Nação ou Reinos, que se fincavam naquelas
rochas de ar e horizontes finitos.
Deslocando
minha consciência, numa das fases daquele sono artificial, segui sem problemas por
todas as aberturas daquela nave, quando percebi que não estava numa nave. Seja
lá o que fosse, parecia ter o tamanho de uma megalópole. Porém, sem nada de
urbano, sem prédios, apenas longos corredores, a maior parte deles vazios.
Consegui sair dali e vagueei pelo espaço. Tudo corria rápido, e quase não
consegui acompanhar. Aquelas naves, maiores do que aquelas que nos atacaram
inicialmente, certamente conseguiam atingir a quase exatidão da velocidade da
luz, mas ainda tinha minhas dúvidas de se elas seguiam realmente para o
CONGLÔMERO. Alguma coisa me cheirava mal, ali.
Segui por um tempo indiscernível
e, em suma: havia outra nave, bem menor. Quanto tempo demorei? Sei, apenas, que
lá cheguei. Havia dados correndo. Eu podia enxergar, perceber, em meu corpo
desencarnado. Como suspeitava… a Guia da Expedição não falava nada sobre o
CONGLÔMERO, sobre a localização que eu conhecia. Estávamos… correndo em
círculos!
***
MEMÓRIA-RELATÓRIO
Af0.322G:
Serei
breve. Sou Flavila Costaranza. Nasci na Megalópole RAVIANO. Fui tirada de minha
família, treinada como Observadora. Nossa função: ficarmos de olho no Cosmos.
Mais tarde, fui designada como Observadora Psíquica, ou seja, minha função
seria sondar os Isolados, que eu desconhecia. Informaram-me que, há anos, do tempo-padrão,
centenas de famílias se negaram à Grande Reunião. Teria, assim, que manter
relatórios atualizados sobre o estado mental de toda aquela gente.
Era
considerada uma boa aluna. Talvez, por isso, a promoção. Minha coordenadora
acatou minhas pequenas exigências. Parti, depois, numa pequena nave, até o
sistema solar morto mais próximo dos arredores da Via Láctea. Foram sete anos
de viagem.
Após
quase sete anos-luz, deixei minha nave em órbita estacionária a um dos trinta e
quatro satélites do único planeta (um gigante gasoso) daquele sistema solar
morto. Com a ajuda de meus equipamentos, entrei em contato com o LOCUS do
Observador anterior. Com isso, ele pôde partir. Eu assumi, desde então, a
observação e o comando dos milhares de naves espiãs, localizadas a muitos
anos-luz de onde estava, próximas ao conjunto de naves velhas e instalações
antigas dos Isolados.
***
Regulus
mantinha sua consciência próxima a essas duas Memórias. Sabedor de que o
sentido de tudo o que havia criado (aquele astro imenso com aparência de
vidro-plastificado), por onde, através de uma lente, perscrutava o cosmos,
estava em risco.
Qual
seu objetivo de existir? Preservava-se para quê? Regulus tinha que saber
através da descoberta da Fonte de toda a Consciência. E havia algo escondido
num setor de Memórias que ele chamava de Unidade Falha, um setor habitado por
apenas aquelas duas, que ele vinha visitando recentemente.
Visitando-as,
ele percebia: estava próximo de uma área defeituosa. Qual o destino do
desconhecido sem nome e da Observadora?
Antes
de ir a fundo nisso, observou que havia se passado mais novecentos milhões de
anos, do tempo-padrão, no mundo exterior. Nem sinal mais das luzes distantes
daquelas galáxias. Estava tudo frio e negro. Seria já o fim, antes mesmo de
Regulus descobrir a resposta?
Ele
ou ela calculou. Antes do envoltório negro que protegia o seu corpo da parte
exterior do universo se desfazer, haveria o tempo para uma última observação em
seus arquivos, e dessa vez seria possível, talvez, descobrir o que realmente
houve.
Regulus
tentou, mas com outra tática em jogo.
***
FORA DA
UNIDADE FALHA, PERCEPÇÕES ACERCA DA MEMÓRIA 0:
Deocleciano era parte homem,
parte cérebro quântico. Tinha um corpo e um título: Prelado do Cruzeiro do Sul.
Na prática, porém, era um historiador com idade multimilenar. Requisitado pela
Confederação do Conglômero, um milênio antes dos acontecimentos retratados nas
memórias da Unidade Falha, compareceu a uma reunião com o Condestável Prado
Ludex.
O
ambiente tinha uma lareira artificial, numa nave luxuosa. Era uma sala de
reuniões com uma mesa aveludada, duas cadeiras almofadadas, e um cheiro de
incenso doce e leve. A reunião propriamente dita já havia começado há algum
tempo. Agora, porém, ela se encontrava no seguinte estágio:
- Prelado, o senhor conhece o Projeto. Sua primeira
parte foi corretamente concluída, como sabemos.
- Sim. Perfeitamente. “Os últimos três mundos
faliram, milhares de anos após o planeta de origem ter seguido o mesmo caminho,
com o gasto de recursos e o envenenamento do ambiente. As pessoas praticamente
viviam em contêineres, fora dos mundos, ou no subsolo artificial. A população humana
era pouca, e as espécies animais se reduziam a alguns mamíferos, pequenas aves
de colecionadores e insetos para alimentação.”
- Conheço a História, Prelado.
- Mas não a viveu, como eu. Perdemos nossos mundos
e não temos tecnologia de terraformação para fazermos mais lares viáveis em
planetas, nem tecnologia de dobra para encontrarmos aqueles cuja localização
conhecemos. Entretanto, o que você quer mesmo saber…
Em
voz baixa, o Condestável disse:
-…APOTEOSIS.
Após
breve silêncio, o Prelado prosseguiu:
- Há um tempo para tudo. Sou um dos milhares de
guardiões de memórias que, através da captação dos fatos históricos pela
velocidade fotônica, compreende as civilizações antes da espécie humana, nossa
pré-história, nossas civilizações pré-espaciais, nossas civilizações
pós-espaciais, o Primeiro Êxodo, a Colonização, suas inúmeras fases até que, há
quase duzentos e trinta e nove anos, abandonamos os três últimos mundos e
fundamos o CONGLÔMERO.
E
seguiu adiante:
- Porém, caro Prelado, como sabemos: há tempo para
tudo. Nossa religião observa que chegará o dia em que fundiremos as mentes de
toda a espécie humana. Criaremos, conjuntamente, uma entidade, ela será capaz
de criar matéria e observar o Cosmos e suas Memórias, em busca do que realmente
queremos, e muito mais eficiente que nós com nossas mentes separadas: a Fonte
da Consciência ou, popularmente, a Fonte das Almas. Por outro lado, isso nunca
estará completo, porque uma parte importante da Humanidade e até de outras
espécies inteligentes foram-se para sempre, devido à Grande Catástrofe…
[Que
Grande Catástrofe? Eu, Regulus, estou sondando este arquivo, mas não tenho
meios de saber sobre isso. O que houvera? Logo, terei que despertar mais uma
vez, talvez para a Morte. Ainda não sei o que houve. Porém, ainda tenho tempo…]
***
JUNÇÃO DAS
MEMÓRIAS Fa0.016P E Af0.322G:
Flavila pôde implantar o
projeto, nos cinquenta anos seguintes. As ondas, com a ajuda dos mesmos
neutrinos que comumente levavam as vozes e os sons do cosmos para quaisquer ouvintes,
seguiram a incluir as mentes de todos os seres viventes. A essa altura, não
havia mais outras espécies originárias da Terra, nem mesmo insetos, com exceção
de bactérias, fungos e vírus – alienígenas não entravam na conta, nem na
perspectiva do CONGLÔMERO. Antes da Grande Onda psíquica prosseguir até os
Isolados, a Observadora ativou as naves-espiãs em modo de “caça”. Dito isso,
elas atacaram diversas posições, incluindo as posições do desconhecido tio,
filho e patriota comandante. Vamos chamá-lo de “K”.
K.
foi capturado, junto com os restantes, após 3 semanas de guerra. Porém, a
origem da Falha: sua mente, além de ser isolada, era a última daquelas
treinadas na arte do Sonambulismo, ou, simplesmente, na arte de espionar
através do deslocamento de sua própria consciência durante o sono. Treinado em
máximo nível, acima do que quaisquer um dos outros humanos poderiam fazer
naquela época. Ele descobriu sobre o que estava sendo realizado. E, durante a
fusão de mentes… negou-se!
Aquilo
provocou a materialidade da Unidade Falha, e da cegueira de Regulus. E Regulus
percebeu. Não havia, simplesmente não havia, nenhuma questão sobre “Fonte das
Almas” que não passasse de uma abstração teológico-filosófica de um tempo
perdido.
***
O
negrume e o zero absoluto prosseguiam resolutamente. Nada brilhava, nem mesmo
com o uso de filtros de imagem. Sem radiações, apenas a massa escura que logo
seria desfeita. No interior de Regulus, nada de ar, gravidade, nada de pressão,
vida como a conhecemos, nada. O pensamento, subitamente, ia adormecendo. A
consciência, cuja causa era desconhecida, ia se esvaindo. Regulus não podia
permitir, nem podia impedir.
Sou
CONSCIÊNCIA! Sou a fusão de todas as mentes reais e virtuais, práticas e
potenciais da Humanidade! Ainda que faltem todas as outras do Universo… como
surgi? Qual a Fonte?
O vazio o contemplava. Toda a
técnica humana, que esbarrara tanto na terraformação como na tecnologia de
dobra, servira apenas para enriquecer a mente de sonhos fugidios, de ilusões
perigosas, de uma eterna caça a um ser invisível. E tudo aquilo em tonalidades
que variavam do Interior de Regulus ao exterior. O exterior era apenas aquele
espaço negro que se repetia… o Interior, aquelas memórias que lhe eram ele/a
mesmo/a e, ao mesmo tempo, algo mais. Algo mais, pois as coisas nunca eram as
mesmas quando Regulus mergulhava em si mesmo. As memórias sempre mudavam um
pouco. E agora era o seu Fim, o Fim do Universo e o Fim da Humanidade. Deus se
punha no horizonte… até que algo distante brilhou: era uma lâmpada
incandescente!
***
- Deu certo, Senhor. O Doutor Herculano conseguiu!
– disse o rapaz bem vestido, de modos educados, num escritório apertado,
enquanto aquele velho com o cachimbo na boca tamborilava a mesa.
- Entendo, Galba. Já sabia, já sabia. O Doutor
Herculano é um homem muito capaz.
- Então, Senhor, vamos?
- Só um minuto.
O
velho guardou o cachimbo. Era 1927. Rio de Janeiro. Tudo estava ficando
diferente nesse mundo moderno. O Doutor Herculano – há alguns anos inventor do
primeiro cérebro sintético no Instituto Tecnológico de Niterói – criara um
método revolucionário para despertar aquele cérebro.
Em
meio à necessidade de criar uma mente sintética, era preciso simular um sono
antes do nascimento. E, nesse sono, um sonho de inauguração daquela
consciência. O homem sintético tinha quase dois metros de altura, era branco e
de aspecto ibérico. Chamava-se “Regulus”. Antes da imprensa saber, os dois
foram até o laboratório. A notícia era bem recente.
Estavam
frente a um estranho deitado, com, ao redor, inúmeras máquinas, uma luz
cintilante por cima, olhos abertos e espantados, prestes a dizer as primeiras
palavras. Mas, quem falava algo era o Doutor Herculano:
- Doutores, bem-vindos. Regulus está acordado.
FIM
Autor: João Batista Firmino Júnior.


Nenhum comentário:
Postar um comentário