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domingo, 9 de novembro de 2014

Diferença e Repetição (Conto)

Diferença e repetição


Ninguém mais vivia em rochas. Regulus observava o ecrã à sua frente, que tanto podia indicar vastidão como ser a mais simples representação de uma grande sombra vista de perto. As galáxias, distantes, formavam brilhos diminutos. Havia poucas galáxias visíveis dali.
                Todos os espectros detectavam radiações. Todos os mais de vinte e três mil utilizados. Havia as galáxias negras, os corpúsculos vazios, os padrões desses vazios indicando ralos de partículas e de ondas.
                Regulus percorreu, com sua percepção, por todos os pontos sensíveis do GLOBO, que era seu corpo. Tinha setenta e dois quilômetros cúbicos e parecia um liso vidro-plástico, oco em algumas partes.

É tudo igual.

                Cérebros orgânicos há eras sofreram transformação. Seus processos e conteúdos, suas estruturas, percorrendo diferentes realidades quânticas, reunidos num corpus.

Sou eu.

                Essa reunião era um substrato de dezenas de bilhões de seres de uma espécie. Seres que não vivam mais em rochas. Eram do cosmos, sem planetas. Abandonaram suas arcas de metal e partiram e se fincaram, não longe… mas num só espaço. O tempo fizera as galáxias se afastarem. Era uma época gelada.
                Regulus era o corpus de todas aquelas mentes, mas só se tornara realmente único quando alcançou o potencial das crianças não nascidas de inúmeras gerações. Nasceu para pôr fim à morte, ao frio, ao escuro. Em busca da fonte de todas as almas. Entretanto, só via aquele ecrã, à sua frente, costas, interior e exterior.

- Memória!

                Uma voz em pensamentos acabara de se manifestar, sem boca, cordas vocais nem ar. Quatrilhões de constelações formavam glóbulos, oito, um octógono.

- Fonte das almas.

                Mais uma vez, dentre diversas vezes por um tempo quase infinito, a busca pela origem de toda a consciência – a Fonte das Almas ou, simplesmente, a Fonte.
               
Nada.

                Foi quando eu cheguei.

***

MEMÓRIA-ABSTRATA Fa0.016P:

                200 milhões de eras anteriores, aproximadamente, despertei. Despertei dos pensamentos que me distraíam naquela minha caminhada até a cantina de nossa casa. Minha mãe não estava, nem meus dois únicos sobrinhos, que vivam conosco desde a morte do meu irmão e sua esposa.
                A rádio de meu quarto-cabine tocava speran, sintonizado à única estação que nos chegava. Sentei-me por perto, ouvindo aquilo, enquanto mexia em um prato de cereais. E lembrei-me da decisão de minha família, quando ainda éramos pequenos.
                Vivíamos na megalópole PAN-EARD, a mais antiga, localizada em algum lugar entre o sistema solar da Terra e Alpha-Centauri. Era a mais antiga e a mais afastada do CONGLÔMERO, o centro da civilização ressuscitada, como diziam os Maestros, espécies de professores influentes.
                O CONGLÔMERO reunia, desde o fim das colônias rochosas (em planetas com condições originalmente parecidas com as da Terra) – de nossa inabilidade em terraformar, e em nossa estagnação tecnológica que impediu o invento de naves que superassem a velocidade da luz –, dezenas de bilhões de pessoas, além de cachorros, gatos, pequenos mamíferos e insetos. Era uma reunião de mais de cinquenta megalópoles, com exceção de PAN-EARD, a mais antiga e única localizada ainda no interior da Via Láctea.
                Uma civilização inteiramente no espaço, com os iates espaciais para os ricos, as megalópoles para a vasta classe média, e nós da periferia da megalópole mais atrasada, uma imensa arca espacial imóvel, ou quase imóvel, imersa num mar de asteroides, de onde se retiravam metais e outras substâncias.
                Quando criança, ficamos sabemos do plano para a Grande Reunião, em que até mesmo PAN-EARD iria transferir os dez milhões de humanos para o CONGLÔMERO, a muitos milhares, milhões de anos-luz (não sei dizer), entre Via Láctea e Andrômeda (“como” eu não sei). Minha família, e mais algumas centenas de outras nos recusamos. Ficamos para trás, e estávamos em paz.
                Meus pensamentos bailavam perante uma imagem absurda da carcaça de PAN-EARD, quando percebi que o som assumiu uma voz:

- ESTAÇÃO LIVRE/ NOTÍCIA URGENTE: Recebemos informação sobre o CONGLÔMERO!

                Era o que eu esperava. Infelizmente, meus parentes não estavam em casa.

- Há um novo plano de extração. Não nos foi claro. Fomos informados por um mensageiro… sdjfe… daies…

                O som estava ruim, depois retornou de vez:

- …baseados nessa crença, e levando em prática… Desejam TODOS juntos no CONGLÔMERO. Até a última alma!

                Com o passar dos dias eu e meus familiares ficamos entendendo melhor sobre a EXTRAÇÃO. Isso após várias reuniões presenciais em LIMA, instalações de uma antiga estação de mineração em um grande asteroide próximo. Lembro-me de uma reunião:

- Conselheiro Vatehl, por favor, o que está ocorrendo?

                Com todos os presentes, o Conselheiro tomou o microfone, rústico, de Ernst, o difusor:

- A EXTRAÇÃO é mais um projeto absurdo do CONGLÔMERO. Primeiro, há décadas, queriam tomar nossa liberdade, tomar nossos corpos, nossas posses, tudo o que somos, para aquela abjeta “reunião”… Agora, alegam que precisam até da “última alma”. Em resumo a tudo o que disse desde cedo: querem nos caçar!

                Não me interessava a natureza exata daquela decisão do centro de poder. Não entendia mesmo porque esse tipo de medida. Porque essa necessidade de, diante de dezenas de bilhões de pessoas, quererem que nós, eremitas do cosmos, livres das leis do CONGLÔMERO, tivéssemos de nos juntar a eles. O que eles queriam de nós? Não estava tudo bem? Por que não nos esqueciam?
                Não conseguia mesmo entender o motivo de nos quererem à força. O fato é que chegariam nos próximos meses e teríamos que estar preparados. Meu sobrinho, que chefiava um grupo de defesa, chegou a me confidenciar, dias depois, que estavam pensando se não seria mais útil, frente a nossa inferioridade técnica, fugirmos, simplesmente.

- Não, Max. Não estou disposto a fugir – disse, na época.

- Mas, tio. Certamente não conseguirão nos tomar, sei disso diante de nossa fúria. Porém, estaremos todos mortos! Do que adianta? Será que não deveríamos nos esconder, talvez, nas cercanias da velha Terra? Onde quer que for?

- Não posso aceitar. Assumi esta posição de comando, e pretendo exercê-la até o fim. Se iremos morrer, morreremos. O que vale, nossos corpos ou nossa dignidade? O cosmos fez nossos corpos de carne para que treinássemos o espírito!

                Ele não conseguiu me demover. Continuamos suportando o que tínhamos que suportar, até a chegada dos caçadores. E eles chegaram.
                Pelo que vimos eram aquelas naves controladas por cérebros quânticos. Não teriam mesmo a pretensão de nos caçar pessoalmente, claro. Essas naves ficavam estacionadas sempre a meses-luz de nossa localização, e começavam a aparecer, com seus cascos negros e seu brilho avermelhado numa de suas pontas.
                Estacionadas ao longe, enquanto tentávamos imediatamente atingi-las, fomos pegos por uma tempestade não apenas eletromagnética, mas também pentadimensional. Não vou explicar os detalhes técnicos, a questão é que apenas nossas forças de reserva funcionavam. Ficamos com nossas naves paralisadas. Mas, nunca iria desejar fugir, nem a maior parte de nós.
               
***

Após três semanas do Tempo-Padrão:

                Qual o objetivo de tudo isso? Todos nós, sobreviventes, capturados, no interior daquelas naves desalmadas! Presos, estancados, naqueles berços de adultos, forçados a um sono antinatural. Ah, se eu pudesse me soltar! Ainda não durmo, cercado por robôs naqueles corredores. Éramos milhares aprisionados. Se alguém fugiu, fugiu para a morte, porque, no espaço inclemente de estrelas, não há insumos.
                Eu seguia observando tudo. Usei todo o meu treinamento de Sonâmbulo. Pouca gente daquela geração conhecia, mas, quando era mais jovem, aprendi, com meu grupo, a retirar a minha consciência de meu próprio corpo e espionar recintos que nos eram proibidos. Fazíamos isso numa versão decadente de uma técnica antiga, muito usada nos tempos dos Estados-Nação ou Reinos, que se fincavam naquelas rochas de ar e horizontes finitos.
                Deslocando minha consciência, numa das fases daquele sono artificial, segui sem problemas por todas as aberturas daquela nave, quando percebi que não estava numa nave. Seja lá o que fosse, parecia ter o tamanho de uma megalópole. Porém, sem nada de urbano, sem prédios, apenas longos corredores, a maior parte deles vazios. Consegui sair dali e vagueei pelo espaço. Tudo corria rápido, e quase não consegui acompanhar. Aquelas naves, maiores do que aquelas que nos atacaram inicialmente, certamente conseguiam atingir a quase exatidão da velocidade da luz, mas ainda tinha minhas dúvidas de se elas seguiam realmente para o CONGLÔMERO. Alguma coisa me cheirava mal, ali.
Segui por um tempo indiscernível e, em suma: havia outra nave, bem menor. Quanto tempo demorei? Sei, apenas, que lá cheguei. Havia dados correndo. Eu podia enxergar, perceber, em meu corpo desencarnado. Como suspeitava… a Guia da Expedição não falava nada sobre o CONGLÔMERO, sobre a localização que eu conhecia. Estávamos… correndo em círculos!

***

MEMÓRIA-RELATÓRIO Af0.322G:

                Serei breve. Sou Flavila Costaranza. Nasci na Megalópole RAVIANO. Fui tirada de minha família, treinada como Observadora. Nossa função: ficarmos de olho no Cosmos. Mais tarde, fui designada como Observadora Psíquica, ou seja, minha função seria sondar os Isolados, que eu desconhecia. Informaram-me que, há anos, do tempo-padrão, centenas de famílias se negaram à Grande Reunião. Teria, assim, que manter relatórios atualizados sobre o estado mental de toda aquela gente.
                Era considerada uma boa aluna. Talvez, por isso, a promoção. Minha coordenadora acatou minhas pequenas exigências. Parti, depois, numa pequena nave, até o sistema solar morto mais próximo dos arredores da Via Láctea. Foram sete anos de viagem.
                Após quase sete anos-luz, deixei minha nave em órbita estacionária a um dos trinta e quatro satélites do único planeta (um gigante gasoso) daquele sistema solar morto. Com a ajuda de meus equipamentos, entrei em contato com o LOCUS do Observador anterior. Com isso, ele pôde partir. Eu assumi, desde então, a observação e o comando dos milhares de naves espiãs, localizadas a muitos anos-luz de onde estava, próximas ao conjunto de naves velhas e instalações antigas dos Isolados.
               
***

                Regulus mantinha sua consciência próxima a essas duas Memórias. Sabedor de que o sentido de tudo o que havia criado (aquele astro imenso com aparência de vidro-plastificado), por onde, através de uma lente, perscrutava o cosmos, estava em risco.
                Qual seu objetivo de existir? Preservava-se para quê? Regulus tinha que saber através da descoberta da Fonte de toda a Consciência. E havia algo escondido num setor de Memórias que ele chamava de Unidade Falha, um setor habitado por apenas aquelas duas, que ele vinha visitando recentemente.
                Visitando-as, ele percebia: estava próximo de uma área defeituosa. Qual o destino do desconhecido sem nome e da Observadora?
                Antes de ir a fundo nisso, observou que havia se passado mais novecentos milhões de anos, do tempo-padrão, no mundo exterior. Nem sinal mais das luzes distantes daquelas galáxias. Estava tudo frio e negro. Seria já o fim, antes mesmo de Regulus descobrir a resposta?
                Ele ou ela calculou. Antes do envoltório negro que protegia o seu corpo da parte exterior do universo se desfazer, haveria o tempo para uma última observação em seus arquivos, e dessa vez seria possível, talvez, descobrir o que realmente houve.
                Regulus tentou, mas com outra tática em jogo.

***

FORA DA UNIDADE FALHA, PERCEPÇÕES ACERCA DA MEMÓRIA 0:

                Deocleciano era parte homem, parte cérebro quântico. Tinha um corpo e um título: Prelado do Cruzeiro do Sul. Na prática, porém, era um historiador com idade multimilenar. Requisitado pela Confederação do Conglômero, um milênio antes dos acontecimentos retratados nas memórias da Unidade Falha, compareceu a uma reunião com o Condestável Prado Ludex.
                O ambiente tinha uma lareira artificial, numa nave luxuosa. Era uma sala de reuniões com uma mesa aveludada, duas cadeiras almofadadas, e um cheiro de incenso doce e leve. A reunião propriamente dita já havia começado há algum tempo. Agora, porém, ela se encontrava no seguinte estágio:

- Prelado, o senhor conhece o Projeto. Sua primeira parte foi corretamente concluída, como sabemos.

- Sim. Perfeitamente. “Os últimos três mundos faliram, milhares de anos após o planeta de origem ter seguido o mesmo caminho, com o gasto de recursos e o envenenamento do ambiente. As pessoas praticamente viviam em contêineres, fora dos mundos, ou no subsolo artificial. A população humana era pouca, e as espécies animais se reduziam a alguns mamíferos, pequenas aves de colecionadores e insetos para alimentação.”

- Conheço a História, Prelado.

- Mas não a viveu, como eu. Perdemos nossos mundos e não temos tecnologia de terraformação para fazermos mais lares viáveis em planetas, nem tecnologia de dobra para encontrarmos aqueles cuja localização conhecemos. Entretanto, o que você quer mesmo saber…

                Em voz baixa, o Condestável disse:

-…APOTEOSIS.

                Após breve silêncio, o Prelado prosseguiu:

- Há um tempo para tudo. Sou um dos milhares de guardiões de memórias que, através da captação dos fatos históricos pela velocidade fotônica, compreende as civilizações antes da espécie humana, nossa pré-história, nossas civilizações pré-espaciais, nossas civilizações pós-espaciais, o Primeiro Êxodo, a Colonização, suas inúmeras fases até que, há quase duzentos e trinta e nove anos, abandonamos os três últimos mundos e fundamos o CONGLÔMERO.  

                E seguiu adiante:

- Porém, caro Prelado, como sabemos: há tempo para tudo. Nossa religião observa que chegará o dia em que fundiremos as mentes de toda a espécie humana. Criaremos, conjuntamente, uma entidade, ela será capaz de criar matéria e observar o Cosmos e suas Memórias, em busca do que realmente queremos, e muito mais eficiente que nós com nossas mentes separadas: a Fonte da Consciência ou, popularmente, a Fonte das Almas. Por outro lado, isso nunca estará completo, porque uma parte importante da Humanidade e até de outras espécies inteligentes foram-se para sempre, devido à Grande Catástrofe…

                [Que Grande Catástrofe? Eu, Regulus, estou sondando este arquivo, mas não tenho meios de saber sobre isso. O que houvera? Logo, terei que despertar mais uma vez, talvez para a Morte. Ainda não sei o que houve. Porém, ainda tenho tempo…]

***

JUNÇÃO DAS MEMÓRIAS Fa0.016P E Af0.322G:

                Flavila pôde implantar o projeto, nos cinquenta anos seguintes. As ondas, com a ajuda dos mesmos neutrinos que comumente levavam as vozes e os sons do cosmos para quaisquer ouvintes, seguiram a incluir as mentes de todos os seres viventes. A essa altura, não havia mais outras espécies originárias da Terra, nem mesmo insetos, com exceção de bactérias, fungos e vírus – alienígenas não entravam na conta, nem na perspectiva do CONGLÔMERO. Antes da Grande Onda psíquica prosseguir até os Isolados, a Observadora ativou as naves-espiãs em modo de “caça”. Dito isso, elas atacaram diversas posições, incluindo as posições do desconhecido tio, filho e patriota comandante. Vamos chamá-lo de “K”.
                K. foi capturado, junto com os restantes, após 3 semanas de guerra. Porém, a origem da Falha: sua mente, além de ser isolada, era a última daquelas treinadas na arte do Sonambulismo, ou, simplesmente, na arte de espionar através do deslocamento de sua própria consciência durante o sono. Treinado em máximo nível, acima do que quaisquer um dos outros humanos poderiam fazer naquela época. Ele descobriu sobre o que estava sendo realizado. E, durante a fusão de mentes… negou-se!
                Aquilo provocou a materialidade da Unidade Falha, e da cegueira de Regulus. E Regulus percebeu. Não havia, simplesmente não havia, nenhuma questão sobre “Fonte das Almas” que não passasse de uma abstração teológico-filosófica de um tempo perdido.
               
***

                O negrume e o zero absoluto prosseguiam resolutamente. Nada brilhava, nem mesmo com o uso de filtros de imagem. Sem radiações, apenas a massa escura que logo seria desfeita. No interior de Regulus, nada de ar, gravidade, nada de pressão, vida como a conhecemos, nada. O pensamento, subitamente, ia adormecendo. A consciência, cuja causa era desconhecida, ia se esvaindo. Regulus não podia permitir, nem podia impedir.
               
Sou CONSCIÊNCIA! Sou a fusão de todas as mentes reais e virtuais, práticas e potenciais da Humanidade! Ainda que faltem todas as outras do Universo… como surgi? Qual a Fonte?

                O vazio o contemplava. Toda a técnica humana, que esbarrara tanto na terraformação como na tecnologia de dobra, servira apenas para enriquecer a mente de sonhos fugidios, de ilusões perigosas, de uma eterna caça a um ser invisível. E tudo aquilo em tonalidades que variavam do Interior de Regulus ao exterior. O exterior era apenas aquele espaço negro que se repetia… o Interior, aquelas memórias que lhe eram ele/a mesmo/a e, ao mesmo tempo, algo mais. Algo mais, pois as coisas nunca eram as mesmas quando Regulus mergulhava em si mesmo. As memórias sempre mudavam um pouco. E agora era o seu Fim, o Fim do Universo e o Fim da Humanidade. Deus se punha no horizonte… até que algo distante brilhou: era uma lâmpada incandescente!

***

- Deu certo, Senhor. O Doutor Herculano conseguiu! – disse o rapaz bem vestido, de modos educados, num escritório apertado, enquanto aquele velho com o cachimbo na boca tamborilava a mesa.

- Entendo, Galba. Já sabia, já sabia. O Doutor Herculano é um homem muito capaz.

- Então, Senhor, vamos?

- Só um minuto.

                O velho guardou o cachimbo. Era 1927. Rio de Janeiro. Tudo estava ficando diferente nesse mundo moderno. O Doutor Herculano – há alguns anos inventor do primeiro cérebro sintético no Instituto Tecnológico de Niterói – criara um método revolucionário para despertar aquele cérebro.
                Em meio à necessidade de criar uma mente sintética, era preciso simular um sono antes do nascimento. E, nesse sono, um sonho de inauguração daquela consciência. O homem sintético tinha quase dois metros de altura, era branco e de aspecto ibérico. Chamava-se “Regulus”. Antes da imprensa saber, os dois foram até o laboratório. A notícia era bem recente.
                Estavam frente a um estranho deitado, com, ao redor, inúmeras máquinas, uma luz cintilante por cima, olhos abertos e espantados, prestes a dizer as primeiras palavras. Mas, quem falava algo era o Doutor Herculano:

- Doutores, bem-vindos. Regulus está acordado.



FIM


Autor: João Batista Firmino Júnior.

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