Enquanto folheava,
encontra algo que lhe chama a atenção, havia um conto chamado “A Corda”. Estava
escrito:
“Possuía dois gatos,
duas alegrias, dois animais que sempre o acompanhava na alegria e na tristeza.
Um representava algo oposto ao outro, mas ambos, apesar das diferenças, nunca
causaram problemas ao dono. Mesmo vivendo tão livres, próximos a tanto peixe.
Estavam já há
tantos anos tão bem criados, sempre agradando aos que por ali passavam em suas
visitas semanais. Seu dono era velho como eles, um ancião que não via bem.
Vivia sempre muito triste, mas quando os dois apareciam, a tristeza desaparecia,
diante de um gato egocêntrico, e outro brincalhão.
O primeiro siamês
possuía um alto porte de arrogância, tanto que muitos se assustavam ao olhar
penetrante do gato; o segundo só vivia enrolado em toda aquela lã. Claro, o
gato brincalhão sempre aprontava, o que enraivecia o outro, que normalmente
levava a culpa, mas, a vingança seria breve…
Foi enquanto o gigante estava doente que tal
gato aprontara. Levantando-se, certa manhã, da cama, o velho não achou suas
sandálias e saiu procurando pelo quarto. Lá vem o gato esperto, que com o olhar
faz o ancião seguir seu doce caminhar até a cozinha de sua casa.
Grande foi a surpresa
do velho homem ao encontrar as suas sandálias penduradas no armário da cozinha,
por uma estranha corda ligada à portinha entreaberta. Logo aquela porta
quebrada! Apanha uma escada, sobe e, antes de cortar a corda com a tesoura,
tenta abrir a porta. Parecia haver um peixe podre guardado há muito tempo. Não
ousa observar o espetáculo.
O cheiro estava
forte, apesar da gripe, e, com a tesoura que trazia consigo, cortaria a corda e
pegaria a sandália. Algo mexe dentro do armário, o siamês esperto ria com os
olhos, o velho iria cortar. E por que não? A atenção seria toda para si, aquele
outro gato estava praticamente morto. Porém, assustado com a estranha
substância que saía da corda, que se rompia durante o corte, o velho
desequilibrou-se e caiu.
Sandálias de um
lado, o siamês mal teve tempo para olhar, o velho caiu em cima dele com a
tesoura apontada para seu corpo peludo. Tempo? O velho ergue-se e vê seu
querido gato ensangüentado, e aparentemente morto. Levanta-se e pensa, com dor,
em seu belo bichano, ser inteligente, que o salvara a vida, a tesoura pontuda
enterrara-se bem naquele ventre. Ao contrário do gato inútil, que só brincava, o
primeiro sim valera a pena criar, ao contrário de um pequeno brilho que surgia
na escuridão do espaço entreaberto, que sorria, mesmo morto, com os olhos, e
mirava.”
Sobe a vista, grande parte
dos estudantes havia partido, chegada a hora. O restante aprontava-se para
sair. Ele ficaria por mais tempo, seria o último a retirar-se, mas antes, tinha
de colocar o livro no devido lugar.
Estava só, debaixo daquela
única lâmpada acesa. Eram quase nove da noite, pelo que mostrava um relógio
rústico com seus pêndulos, quase escondido por uma estante, onde a luz começava
a escassear. Vira-se e percebe que o lugar do livro ficava no canto mais
obscurecido da biblioteca, em uma das últimas estantes, na escuridão mais
profunda.
Caminha, aproximando-se
daquele lugar, anda para longe da luminosidade artificial e do pouco de claridade
que trazia a janela. Para, com um certo temor, olha bem para o livro antes que
a luz sucumbisse por completo. Nada! Nada havia em sua mão!
Acelera o coração, como
também o raciocínio. O cheiro de mofo era forte. Só podia haver uma explicação:
era aquele mundo! Teria de se apressar, mas antes que terminasse de pensar…
Sente uma presença! Bela amostra de medo inútil, percebe logo que o que sentia
não vinha de fora, era de dentro.
A sensação de haver alguma
presença aumentava, era pressionado, a sensação era muito forte, cada vez mais.
Sai imediatamente daquela parte escura e corre para a porta. Trancada!? Não,
claro, o último a sair deveria ter trancado a porta, por fora, acidentalmente;
o trinco não estava bem desde muito. Havia as cópias da chave na mesa de um dos
funcionários da biblioteca.
Era uma mesa muito próxima da
luz, havia ainda um abajur. Aproxima-se vagarosamente e tenta acender a pequena
lâmpada. Estava queimada. Sentia-se agudamente ameaçado… Pega rapidamente o
molho onde deveria estar a chave certa.
Não, ele observa, eram quatro
chaves que abriam as gavetas. Procura a chave da porta e a encontra com certa
facilidade. A sensação de algo estranho por perto era forte.
Estava prestes a abrir a
porta. Sente um frio na nuca, olha pela última vez para trás. Por um momento
parecia ter visto um brilho, uma luminosidade amarelada que, como um relâmpago,
seguiu até a janela e… desapareceu. Abre imediatamente a porta e joga-se ao
corredor. Depara-se com um lugar ainda mais escuro que os cantos mais
desconhecidos da biblioteca.
Continua...
Autor: João Batista Firmino Júnior.


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