É verdade. Pelo que percebo, apesar de sermos um país, não somos uma nação. Ser uma nação significa encontrar um grau de coerência e coesão, um "espírito comum" baseado numa tradição de várias gerações. Não me refiro à imagem do samba, do futebol ou da figura do anti-herói. Refiro-me a uma consciência de povo que não seja atrelada a regimes de Poder ou a partidos e ideologias.
Não sei dizer o que as pessoas sentiam diante dessa pergunta ("o que é ser brasileiro?") antes de 1964. Mas, posso inferir que a ideia era que "ser brasileiro" era servir ao regime. E isso se repetiu nos governos subsequentes, após a redemocratização, em graus maiores ou menores.
Hoje em dia, pensa-se que "ser brasileiro" é ser de um partido X, ou apoiar tudo o que ele faça. Uns entendem que "ser brasileiro" é estar mais próximo de um governo de Direita e outras de um governo de Esquerda (sendo que no Brasil nem tenho ideia mesmo do que é ser de Direita ou de Esquerda). Mas isso definitivamente é "menor" que um conceito de nação, que é mais amplo. Isso de Direita e Esquerda pode servir e serve a um conceito de GOVERNO, mas não de ESTADO. Lembrando que o conceito de ESTADO é produto do conceito de NAÇÃO.
Somos mais um país, mais um estado ambulante tal qual um objeto com pernas e braços que anda para lá e para cá, que o espírito que anima e que é maior que tal objeto.
E essa condição de não sabermos o que é ser brasileiro se repete quando ocorrem casos contra nossa soberania... por quê? Porque pensamos: "é a nossa soberania, algo que me envolve enquanto parte de uma nação ou a soberania de um governo cujo exercício eu concordo ou eu discordo?".
O que quero dizer é que certamente, ainda que desconheçamos, há Princípios anteriores e "maiores" que nosso apoio ou desapreço a determinados governos. Por outro lado, não podemos cair na armadilha de usar a ideia de soberania e de "ser brasileiro" de forma a participar da distorção de que devemos seguir a ideologia X para sermos brasileiros. É preciso certa calma e inteligência, certa frieza até, para tomarmos o devido cuidado de, ao defendermos nossa soberania, não degenerarmos à subcondição de tolos úteis, servindo aos interesses do grupo de Poder X, Y ou Z.
Enfim: o que é ser brasileiro? Se ainda temos dificuldades em saber o que é (e mais grave ainda quando achamos que sabemos, daí somos enganados mais facilmente), o que é até positivo (reconhecer essa dificuldade), tentemos ao menos pensar e agir como pessoas dignas, honradas e, mais importante que esses valores: auto-críticas (a fonte da maldade e da degenerescência está na ausência de uma adequada auto-crítica, está em acreditarmos que isso é para "fracos"), sem confundir com mera auto-depreciação sem solução.
Autor: João Batista Firmino Júnior.


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