O Velho
Parado num canto,
Com formas murchas,
O corpo magríssimo,
Uma sombra da carne.
Roupas desbotadas,
Olhar alheio,
Sorriso vago,
Camisa puída de verde-desbotado.
Esteve lá ontem,
Esteve lá há quarenta anos,
Esteve lá há um século…
E nunca para no tempo.
Não sabemos de onde surgiu,
Nem sabemos para onde vai,
Nem ao menos o que há por trás.
Ele é homem assexuado,
Vaga forma de manchas,
Olhar perdido para dentro…
E nem os malfeitores notam,
E deste nem conseguem
Chegar perto.
Ele é abstrato e distante,
Apenas um olho que vê tudo,
Um olho do corpo que é o mundo,
Ou o próprio cenário de
Esquina ou praça.
Ele é infinitamente velho,
E nunca dorme.
Mais velho que o universo,
Sem ser deidade.
Um mistério puro e simples…
Apenas um homem velho,
Mais velho que a própria velhice.
Ele olha o mundo,
Ele é um pai antigo,
Ele aprova ou reprova
Só por presença,
Ele julga a Eternidade ao
Apontar o nosso próprio
Julgamento já realizado.
Ele estava lá quando
“lá” não havia…
Com aquela camisa puída,
Maquinando por dentro
O que lhe cai da mão à direita:
O Livro do Destino!
Paisagem morta
Um mundo fantásmico –
Sem dentro nem fora? –
Permitia gradações de cheiros.
Um portão à frente,
Um mundo atrás, de odores,
Desejos, sonhos, desesperos
Entre a torneira, o prato e o bojo.
Eis que confirmamos: após o portão a prisão;
Em seu interior uma paisagem-vida,
A vida em poucos metros quadrados.
E, nesse interior, a lembrança de
Um poema perdido nas margens da rede
Complexa de informações,
Em telas que também são uma coisa só,
Uma mera paisagem de formas recônditas
Vestidas de odores esquecidos sob o aspecto
De pensamentos rápidos e instáveis,
Sem beleza nem entendimento…
Tal qual caroços que crescem sobre caroços,
Em um caminho em círculos sobre si próprio.
Diante disso, e ainda assim,
O ator dessa paisagem deve deixar de sofrer
Da perda de antigos poemas, paisagens oníricas,
Saídas que não estão nas portas
E paredes que são saídas.
Vazio
Esvaziado de sentido,
Vai vazio,
Sem nada,
Na linha reta,
Vai sombrio.
Segue vago,
Vaporoso,
Tardio e vagaroso,
Circulando sobre si mesmo.
Mira pra dentro,
Esmigalha a visão,
Não tem unidade.
Cansado de um quê,
Sem ser para saber,
Ou sabendo que não se é –
Apenas uma corrente de ar
Numa tarde qualquer,
Em amontoado de casas sem nada nem ninguém,
Abandonadas às margens de um rio de carros,
Absolutamente silenciosas,
Como um personagem-cenário
Que se enche de ar.
Escuro
Não sabia o que fazer,
Na tela de teia escura
Por onde grasnam estranhos.
Sem passo, passado,
Nem atividade.
Amordaz, calado,
Despersonalizado,
Consumido.
Desespero na rede
De telas.
Escrutínio do Medo e
Obrigação na Busca por alguma… luz?
Algo percebível basta.
Fazer é a chave
- abrir é outra história.


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