Os melhores blogs estão aqui

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

7- PELA CAPITAL DE TODOS OS NÓS (penúltimo capítulo)

Um contador de histórias já dizia,
E Mendes lê, deixado à frente do Portão
Luxuoso da Metrópole em mármore polido,
Valoroso escrito desse tal
Empregado de sua vontade, os males
De um mal de um Monstro, escrito na rocha
Âncora, empoeirada, da época em que
Aquela terra fora colonizada e povoada exageradamente…
Já dizia a pedra, mais claramente,
O que soa aqui, sobre um Monstro tal como mal descrito,
Assim:

As portas são fechadas por ventos que se iniciam,
Os olhos assustados iluminam a cidade, os cães uivam,
Não é a existência do meio, a sociedade intacta, mas algo de podre;
É ela, vinda como furacão, de
Deformação cumulativa a cada passo que se inicia.
Um furacão que, em seu caos, às vezes ordena;
Num elogio sutil a uma Maravilha que sabe que é bela,
Na feiura duma máscara que expressa muito
Melhor a diferença do que
Está no fundo daqueles olhos
Que nada mais são que os centros de um conjunto de ventos,
Que se anunciam destruidores irrequietos.

As primeiras sombras roucas e melosas reúnem-se como
Manto de uma gosma cruenta, que ainda assim protege,
Quase como gente, é um furacão derrubando
A gente, com sua forma mole de corpo grande e
Mente curta para pensar seu caos,
Na formação de uma coisa bela que se forma, mesmo que com um ideal
Comprometido pelos que a fazem.
É o instinto burro de toda gente, para o que ainda virá,
É coisa gorda, extensa e mole, pelo que ainda falta lapidar,
Escurecida pelos Males dos pássaros que lhe saem a gorjear
A rouquidão afetada pela catástrofe
De todo dia, numa maravilha e num terror de ser o que é,
Que se salva ainda
Pela hipocrisia que o todo tolo dela ainda não é, mesmo com todos os cínicos
Que comem nela.
Alimento para aquele ente… É algo inflexível como pedra, mesmo sendo como
Pedra de mesma composição
Que toda a matéria, do pó de estrelas, e de todo o conhecimento;
A fazer todos chorarem por sua gentileza – de alegria ou de tristeza –,
A fazer todos escreverem, para que se mantenham vivos,
É o furacão espinhento, metáfora de toda a ambição que amaldiçoara
Aquela terra, arrasando-a… É o furacão espinhento mesmo que como
Rosa vermelha e amorosa, da
Dor da realidade que não por demais sonhadora e hipócrita,
É como é em algum lugar de algum brilho que se finca na pedra
Em que se escreve isto aqui!
De insetos sugados por sua podridão que
Não é verdadeiramente podre como os olhos que o espreitam e que o fazem;
É um cadáver
Que não morre, vivo a respirar por seus inúmeros poros invisíveis,
Vivo por uma pele atraente, que encobre a feição de uma fertilidade e de
Uma proteção, se levada em conta a intenção original de qualquer forma de ambição…
Mas, que só sabe usar, pegar um daqueles cães que testemunham a desgraça,
E dominá-lo, usá-lo e jogar fora,
Na indecisão mórbida e sofrível de quem está no poder, sem saber que 
É sustentado de alguma forma por cada ar parado que forma aquele todo desastroso.”

É a voz que gorjeia por aquela coisa podre que todos nós fazemos, é aquela
Coisa, é a tormenta, a destroçar intenções, pois destroçam nela;
A desprezar a vida, em busca de mais vida;
A jogar-se no lixo, sempre e quando a não notar que seu
Vento, que só se nutre de corações, rodeia naquele papel,
No desprezo que faz, ele próprio – e que fazem dele próprio –
A sua beleza inexistente
Naquela banha estrepitosa que o povo faz nele…
Tudo ronda na sua Beleza verdadeira no ideal de um coração
Que tentou construir uma sociedade poderosa;
Que despreza a gente, pelo desprezo que cai nele, nela, nisto,
Por uma arrogância incomum,
E que a gente cospe – é o espelho que reflete nossos rostos cínicos –
E não aceita em nossa casa, a contaminar nossos entes.

“É o monstrengo, ideal vítima de todos nós,
Com seus pássaros, seus corvos, controlados, que gorjeiam,
E cantarolam asneira, fazendo a burrice que se conta da vida dos outros;
É com seus tentáculos a tentar dominar a todos, e quem acha que está
No poder engana-se na chefia de seu controle e se perde nele…
É a palavra feia que imita a paz, mas a própria paz que se faz pia
Não o imita; que não vê beira, pois o cegaram…
É o monstrengo a se repelir com as torres Eira e Moura como é,
É coisa fácil de ser pisada pelos mentirosos que pisam nele.
Eis que, ainda assim, temos algo digno
De pena, algo que despreza o ordeiro pensamento;
Vítima de sua lama rodeada por um piche…
É quem pensa que não te quer mais a amedrontar nossos cães,
A torná-los raivosos;
É quem pensa que não pensa, que olha seu próprio podre e suja o ideal que os
Ares são, que suja
Limpo para que limpe uma mentira que está no que um povo faz
Em cantorias mecanizadas;
É quem pensa, consciente dos podres dos ares nossos,
Inconsciente dos seus próprios, que vê mais do que a Criatura imagina.
É, grande tormenta, se lês, e se vês ainda por baixo de tudo que o pesa,
Leia com o coração
E capte a intenção verdadeira, desprovida de torções: nada mais que avisar
A todos do perigo de algo assim se repetir em outros campos, algo que é
O reflexo de todos nós.

E o ideal original que tu és ainda segue incorruptível, por baixo da corrupção!
É uma bofetada no teu rosto pútrido, que é um pedaço do nosso que
Cai sugado pelo vácuo de um ideal nosso, que não damos vida; e disforme por
Entre o piche,
É, fora da seqüência, a coisa pensante que avisa a todos os pássaros de
Mente curta, que não
Sabem que o ser pensante tem ouvidos e compreensão:
Ele sabe tudo! – e não sabe nada –
É o ser pensante, única salvação deste lugar,
Conhecedor do podre desta sociedade, da nata podre,
Vendo além do horizonte…

E terminava, mais ou menos, nas linhas mais apagadas, dessa maneira:

Levanta, monstrengo!
Estais misturado na lama que é o povo que te forma
E que suja valiosa pérola que és tu verdadeiramente por
Trás do manto podre que colocamos em ti – lama que é
Um excesso de coisa boa, que
Se torna má!  Excesso de bravura que se torna mera ambição e decai em obsessão…
É a pequena sociedade imbuída em ti como lama que te mela!
Corra! Vamos! Voltes para o Tártaro, àquele fim
De mundo, início de outro!
És tu a forma daquela sordidez, mesmo que
Sejamos a essência do que tentamos formar
Em ti, jogando a responsabilidade na tua impessoalidade – daquela enganação
Que não sabe de nada;
Estás na corrupção que une, como
A coisa mais limpa que habita num mar de cobras!
Estás na violência do impacto de tanta falta de ordem, no ideal que coroa a
Mente dos condenados, na fome e na mendicância,
Nos vícios do que vem após a entrada próxima
Nos vermes da barriga de um menino que chora;
A piedade não pisa em ti, sociedade!
És pior, és o que inventam de ti, pois um ideal
Facilmente elogiado é falso; és tal sociedade contaminada pelos
Que a tornam opulenta,
Pelos que olham errado e só vêem os seus reflexos nas sobras
De um admirável mundo novo!

Mendes de Nenhuma Vocação, sem realmente entender
Aquele emaranhado de palavras mal dispostas, estica as costas, olha a porta,
Verifica a viola, o trabalho seria duro, enfrentaria, naquele mesmo dia,
Entes desconhecidos, sem a resolução do enigma, sem as chaves
Das mais inúmeras passagens ao caminho, agora bifurcado, do Norte
E do Este.
Mendes é esperto e, ao pedir passagem à porta viva, descobre
A senha pela iluminação das mãos de Mazda.
Grita a senha para a frente:

“Curve-se aos Passos de teu Mestre de Longas Terras de Antes do Último Mourão dos Olhos da Beira! ”

E, como no ABRE-TE PEDRA MINEIRA de outro, Mendes
Deixa-se ao léu de uma perdição,
Rumo à sedução que surge, ao abrir das abas daquela vagem,
Todas as delícias de uma cidade.
Os homens Altos lá de cima do comando
Observavam a entrada de um estranho, mais um,
Passando pelas grandes Torres: uma que aponta caminho a Leste,
Torre Eira; outra que aponta caminho a Oeste, Torre Moura;
Forças de uma força poderosa que impediam a entrada de
Um ser que só come o pó das insignificantes ranhuras nos
Cascos tanto da Eira como da Moura, que não
Servia ao título divinal no nome silencioso da Protetora, pois era 
Da falsa calma da morte, onde as palavras têm vida e, na vida,
“Ma” seria de Mãe do Grande Rio que Seguia, filho respondão,
General de legiões contra a canção destemida no tom
Suave da Terra nobre que encobria seu poder naquele
Inominado que é motor de propulsão valente.
Muita gente fazia-se à frente, abaixo
Dos largos e gigantescos edifícios de uma arquitetura
Desafiadora dos anseios gravitacionais provocados
Por uma Mãe desprezada, das
Largas estradas com seus diversos veículos e máquinas,
E eletrônicos, e seus conhecimentos do átomo que se parte,
Desprezando o esqueleto de uma mente, a forma
Original de uma Mãe eternizada na aura do Sem nome.
E Mendes desgraçado queria saber do enigma?
Mendes esquecera-se ali, bem atrás, vestindo-se nos
Podres dos restos de um Monstro a sempre tentar
Fugir dali, assim
A espreitar e a dominar, com sua roupagem,
Os peregrinos simplórios que o divertiam.
No meio da multidão havia um boi desgarrado
Na gente indiferenciada, destacado
Na sua viola esquecida por seu ultraje,
E Mendes não entendia as letras saídas
Nos sons daquelas bocas sanguinolentas,
Era muito podre enrustido em causas nobres
Destruídas em lixos ricos desperdiçados
Em feiras livres a economizar
Para os fins de uma marginalização,
Do lado podre da cidade.
Mendes de Nenhuma Vocação é
Também de nenhuma luz, chega
A um beco que não reluz e ouve barulho
Saído de bocas vencidas, de falsas violas e de
Arte viciosa e prostituída, pela frequência morta
Daquele equipamento mostrado numa loja de venda
De equipamentos, numa enganação saliente, porém, numa
Beleza de incomensurável força na atração, num desejo
De quem quer ter a raridade, mesmo que de maneira forçada,
Forçada por dois “trombetas”, ao dito do povo de Mendes,
Trombetas quebradas e não fazedoras de sons convincentes, faziam festa
Na loja de nenhuma gente, faziam
Entrega numa parte negra dos olhos de um Monstro doente,
Eram vermes prontos a serem atacados pelas defesas
De uma ousadia tardia no cacetete de uma farda de nenhuma
Nobilíssima perda a um sujo de um male social,
Vêm rápidos os corvos a capturarem as sobras, com curiosidade, na boca
De palavras pútridas de um hálito de fogo do dono
De um estabelecimento onde impera:
Interesse organizado, assalto e crime;
Os praticantes da profissão desrespeitavam-na
Na unção de suas práticas na saliva de um Monstro que
Os batizava e os abençoava, e criava corvos,
Alimentados pelo sobejo da canalhice declarada
Numa hipocrisia de todo dia, de gente cafajeste.
É quando, debaixo das nuvens pretas, entes do
Disfarce, enclausurados, arrudeiam a um Mendes
Desajustado, que não lembra mais da viola saudosa que
Sofria por um desprezo incoerente à mente sadia
De um Mendes, e uma
Das sombras diz ser gente, diz-se amiga
Do visitante sem nome, que era o dono de uma
Viola escondida na índole enlameada,
Que aceita o convite para ir com eles,
Conhecer a cidade.        
E a cidade era aberta
Por olhos cobertos pelo asfalto adiante
E as narinas cheias de odores nauseabundos,
Era aberta por avenidas larguíssimas, e o calor era grande, da
Ilha de calor que prendia os ares quentes que subiam e quedavam-se encapsulados,
E o suor de um motorista reluzia, e Mendes seria intrometido
Perguntando o que este faria, para onde iria, e este
Reponde em palavras indecifráveis, e Mendes sai inconformado,
E vê, ainda, muitas coisas novas, muito barulho, as sombras o perdem,
Vai tudo rodando, como num carrossel, o espetáculo de luzes, o espetáculo
Do que está errado, e Mendes via todos passarem e o desprezarem,
E tentava defender sua posição ignorada, ignorado, e quanto
Mais explicava pouco se compreendia, e ficava pior, e pior lhe acumulava
As tonturas da rotina que roda, do que corre para não ser comido,
E Mendes ficava revoltado, andando certo onde todos
Andam errado, só ele sabia que estava certo, na consciência a saber,
E que todos estavam errados, mesmo que certos no circo
De cada cabeça abitolada, cada cabeça de uns rapazes que
Passavam ouvindo os fones pretos em bitolas pelos ouvidos mascarados,
E Mendes ia caminhando por entre as ruas, e sujando-se, com as
Trouxas perdidas, trouxas de sua tradição, impelidas por outra maior,
Desimpedida, e esquecia o vetor desgraçado apontado à sua terra,
O danado do Grande Rio que Seguia e, sempre nesse meio termo,
Andava certo limpado-se na sujeira de uma vida tornada Monstro de
Uma sociedade de pulgas, sugadores convictos, onde
Se fala e não é escutado, onde mundos pequenos são criados,
Onde a ordem segue apenas um papel para justificar a razão,
Ou a loucura daqueles loucos…
Mendes para, escuta, uma procissão, uma baderna…
Os carros iam sumindo por outras avenidas e ruas, e os pedestres desapareciam,
Era um batalhão de mendigos, e as viaturas do céu e da terra chegavam
Cortando caminho, caindo no estômago, a tentar fazer o Monstro regurgitar
E vomitar para dentro de suas celas, o próprio produto excluído
Para dar lugar a quem senta primeiro na velha brincadeira infantil;
Eram mendigos! Era gente! Talvez fossem como gente, talvez deixassem de
Ser as máquinas que dominaram a cidade, e faziam-na dormir,
Talvez deixassem de ser os homens há tempos transformados nos próprios
Utensílios domesticados, onde motorista é adorno.
Eram comandados, ao palanque de um carro, por um deles,
Chamado Baltazar, e Baltazar berrava pelo fim de um Monstro,
Sujeira de uma sociedade,
Sujeito de uma saciedade, dentro
Dele, e os anticorpos chegavam: os fardas brancas, os leucócitos; e os
Helicópteros, os linfócitos, e as demais fardas arrumadas no amarrote dantes,
Termo a que se reduzia a mente de um Mendes ocupado por uma vontade
De interpelar o homem que ali clamava, e o interrompe dessa maneira:

“Espere! Por favor, dê-me uma chance:
Sou de lugar de fora, de lugar nenhum.
Parece que tu sabes a consciência que tens do lugar,
Consciência de uma loucura que dificilmente controlamos.
Reconheço um dos ‘olhos’ do Melro caçador,
Você conhece o enigma…?”

O mendigo de nome Baltazar responde em algo declarado
Silenciosamente, e confirma:

“Sim… Procures o Outro Lado da Nona Baiana,
Um espírito que a toma no sono, que a eleva
E a torna em sua face verdadeira, e que explica a tudo…”

E é alvejado simplesmente, e o alvejo faz
Antecipar um encontro de interesses, fato a pôr um Mendes
De Nenhuma Vocação a correr pela estrada tempestuosa.
Mendes só para lá na frente, esbaforido, não se cansa,
Tentaria invadir o Centro de um governo mal governado,
De um rio desgovernado, pisando naquelas nuvens de uma
Capital nada majestosa, e que ele só agora descobria, acima
Das terras lá de baixo… E as sombras avisam, pelas escondidas,
Aos abutres televisionados.
Mendes corre para acelerar, não estava em seu mundo, o tempo urgia
Nos beliscões faltosos numa viola de constante abandono,
Mendes corre até ser pego por uma das defesas de um Monstro
Que ataca.
Em trouxa, é levada uma forma parca, arrastada
Até o campo de visão de um posto próximo.
Mal viam, e quando veem ficam consternados, à frente
Da coisa espumosa que saía, avermelhada, da traz de
Um Mendes de Nenhuma Vocação, e uma diligência fora chamada
Ao posto ao qual se fazia um tal de um Mendes como prisioneiro
Das garras de um Monstro, de mãos algemadas atrás,
E um Mendes, nunca antes tão assustado, pede mais uma vez
Ajuda à Grande Mãe, que se faz sentir, em vibrações, naquela
Terra que a ignora e que se faz ignota, tudo
Em meio à extensa sala de audiências de um posto pequeno,
Bordado por cachos de fuligem vinda das rodas, da borracha, acumuladas
Num terreno baldio ao lado, a remexer as entranhas de um isopor, e a
Fazer tremer as varas que seguravam, que baseavam
Os ricos prédios de papelão,
Do pau podre e das entranhas moles de uma coisa fabricada para ser
A programação, em religião, aos olhos de fanáticos de uma gente cega,
Fabricante do próprio mal, em cultura em grande parte como
Defecado de um Monstro,
Saído das indústrias que fazem um intestino;
E tudo aí é rápido, quando Mendes é lançado,
Quando é jogado por aquela mesma manopla compadecida, filha
De uma Mãe agradecida, a fazer Mendes, como tal agraciado,
Desfazer aquele véu negro de cima de sua terra e da fronte
De um solo do todo, a fazer as palavras e o ritmo da Grande Trova
Saírem invictas em sua missão dita assim progressiva, ou assim
Mesmo caótica, sem nada organizado.
Com tudo arrastado pela confusão, ainda o Forte erguia-se imperiosamente,
E no meio daquela praça que se estendia, surgem dois grupos, duas
Correntes fortes de um vento: do Norte e do Este.
Era agora a vez de tudo acelerar como tal pensara Mendes,
Não havia Melro ali a lhe ajudar, não surgia mais a manopla
A lhe cuidar o sangramento correto da ferida aberta,
Nem uma Mãe reagia ante as forças fortes das duas correntes.
As trombetas tocavam ante a vinda de uma reviravolta, e as
Palavras do vento Norte invadem os ouvidos de um Mendes:

“Não venhas se aproximar mais! Nem se exponha demais!
Sou chamado de Norte, um ponto mais forte como nome!
E sei disso, e não sopro mais à tua terra,…
Por qual motivo? Por não querer salvar quem não merece,
Por não poder soprar eternamente ante um podre que
Se funde com teu povo, por não
Ter de soprar, em meu vento, contra cada um de vós!”

Mendes ainda não entendia o que fazia naquele piso, e
Não sabia que desde que fora pego havia caído em proteção,
E assim não percebera as semanas que se passaram ao se
Fazer ali naquela praça, ao se ver espantado ante os escombros
Grandiosos, onde, por baixo, tremeluzia alguma vida.
Mendes acorda a um quase miado da corrente Este, e
Tem-se, ainda sem vocação, um homem pequeno perante
A tradução sem ajuda de um Braz, que não pisa lá.
E o “miado” aumenta, imponente, e mostra-se:


“Se tu não te calares… Não sei mais o que posso fazer,
Devemos ainda soprar, ali na terra da figura que nos olha,
Ou cada um ao seu lado distante, sem que…”

A corrente de um vento mais raivoso, ao Norte, via-se
Impelido pelo Grande Rio que Seguia, que o controlava em
Seus vapores, e que o fazia vibrar, como furacão, para cima
Dos sopros a um Este que não parava e que também atacava.
E os vapores do Grande Rio que Seguia pegavam Mendes,
Um Mendes como tal nunca mais indestrutível, em choque, calado,
Falso herói, pelo medo que o torna como tal, a suportar, por
Um verdadeiro heroísmo que não existe, e o sangue vai sendo apagado,
Mas… A mesma força que assopra para apagar, faz vibrar
As cordas de uma viola
Escondida no corpo flácido de um adormecido, e faz as cordas se
Entreolharem e
Agirem, e soa o canto mais enigmático, a usar, como último recurso,
Dito enigma de um Sem Nome, materializado em música sem letra,
Que vai tolhendo os vapores do Grande Rio que Seguia,
E Mendes não estava só,
Pois os ideais de sua terra já invadiram a mente e o coração de forças de fora,
A fazer as correntes de ferro que seguravam um Melro a soltá-lo,
E a coisa solta come a
Lebre que era o Inominado, a dar-lhe força e coragem, a clamar e a chamar
A determinação de um Braz de três formas, locupletado, a fazer, assim
De volta, a força que vem de um Cristóvão, o que sobrou dele das
Antigas matas escuras, da primeira face de um Eliseu, que perdeu
O antigo paraíso de seus campos para aquela Capital, governada não
Por líderes majestosos, mas por um Monstro, uma confusão de encanamentos
Que vazam no interior de uma cidade, remendados, sem início nem fim,
E a coisa toda dá a Mendes o espírito que lhe faltava, deixando-o aos
Pés da Nona Baiana que imperava ali, a olha-lo de longe, ao
Longe uma confusão, que trouxera o aumentativo das ranhuras
Das torres Moura e Eira, juntando o Norte com o Este de novo,
Mesmo assim a não intimidar a Nona Baiana, ainda portentosa
De artimanhas fortes, a utilizar-se também do enigma proposto,
No interior da caixa que era o Forte protegido por ela,
E era Mendes ainda a pensar em se organizar, e teria de ver bem
Como fazer tal senhora desrespeitosa dormir.
Era bem visto os alicerces de uma tradição distorcida,
De nove Ministérios a nove títulos dados à revelia de um capricho
De nome, onde os tais colonizadores de antigamente construíram
Nove Fortes de batalha contra o povo mais antigo, povo da nata
De um Braz, expulso para as zonas lá distante, e Mendes propõe,
Ao ver a viola que lhe segurava, uma melodia à Nona Baiana, antes
Da morte declarada de um Mendes, e a senhora meneia um pouco
Levando sua vontade em consideração, pois nunca ouvira mesmo
Uma música como desde muito não ouvira, uma melodia cantada pelas
Cordas de um tempo antigo, e Mendes toca:

Quando a terra era escura,
 Quando não havia chão,
 Alguma coisa pulsava
 De um infinito poderoso.”

Quando a terra era escura,
 Quando não havia céu,
 Alguma coisa seguia ao léu
 De um obscuro e portentoso.

Quando a terra era escura,
 E o véu de nossa visão não se formara,
 Alguma coisa pulsava
 Em algum lugar, numa ilha de um mar.

Quando a terra era irrompida por um brilho forte que começava a querer,
 Um olho que olha…
 Um ouvido que ouve…
 A necessidade da roda…
 As trevas fabricavam a Palavra.

Enquanto a Palavra vem, do farol de um Trovador,
 Nadamos como pescado pelo querer daquele ser,
 Nadamos até uma parte de nós, como náufragos daquela embarcação…
 Enquanto a Trova segue triste, por aquela coisa que pulsa
 No coração de uma onipotência solitária,
 No coração de quem procura no mar da eternidade, em algum lugar daquela
 Consciência, aquela embarcação perdida, de uma terra antiga,
 Para lembrar da origem de todos nós,
 De onde nós nadamos, dando origem a tantas espécies,
 Para lembrar de
 Onde nós corremos, para onde vamos, chamados pela Trova do querer
 De nosso identificar.

O sentido foi esse,
E o canto inimaginável para
Estes escritos.

E no Palácio o toque reverberava, não era um Mendes o cantador,
Era a voz de uma viola que tocava a cada nota, a cada
Estágio de um sono que dominava aquela senhora, deixando livre
A passagem ao topo por onde um Mendes poderia ver a totalidade de seu ser,
Derramado naquelas terras, e descobrir a resolução de um enigma, longe
De todo aquele furacão que dominava lá embaixo.

[Continua...]

Autor: João Batista Firmino Júnior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário