Os melhores blogs estão aqui

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

8- A MORTE DE UM MENDES DE NENHUMA VOCAÇÃO (última parte)


      
Era a cada passo que se seguia cada pensamento,
A cada passo de escada lenta por onde marcava com
Os pés um Mendes de Nenhuma Vocação com sua viola,
Ainda vibrante e reverberante, a questionar a cada toque
Tocado a cada passo nos blocos de uma escadaria, caminho Alto e
Marcado pelos números e pelos desenhos a cada chão, num teto escuro,
E figuras nas paredes revestidas por um cal que se mostra como tal
Incrivelmente dourado enquanto
Jogado naquelas figuras, por um efeito visual, que torna o andante feito
De um azul escuro, tom que não toma instrumento encantador de corações.
Era a cada raio de luz do caminho à frente, onde Mendes ia percebendo a luz
Que o tocava, a luz de um túnel, para lá assim a ver e a tocar ao verdadeiro
Líder de algo corrompido, à coisa controladora, a lhe surgir, por trás da longa
Visão de terras planas lá de baixo, vista em cima de um antigo recanto.
Ao ponto de encontro dos quatro ventos, acima do Forte mais alto, estava Mendes,
Estava leve como bem desejava, a ser levado,
Ou a ser varrido como sujeira, pela
Ventania limpadora de mundos e de gente, vento
Forte a esparramar aquela sangue, que ia transbordando como rio a nascer, e é
Lá de cima que Mendes olha pelo topo e olha a nuvem preta
Que estava abaixo, e
Estava pronto a jorrar aquele sangue ali, através de sua viola de sete cordas,
A fazer ressurgir em nova safra a terra que antigamente habitava naquele
Lugar, como conhecera.
Mas não consegue, um Mendes, tocar bem, as nuvens, movidas pelos ares de
Um Grande Rio que Seguia, chegam a sua altura, e o Monstro o
Encara com um rosto vermelho (eis que de fato tal apareceu),
Que dá medo a Mendes, que mistura urina com o sangue de sua gente, que
Faz a sina da nova gente, e que se desfaz simplesmente
A descer no ralo próximo
Da fuga procurada por um Mendes.
Era o Monstro pisando em gente, era um conjunto de ventos, em furacão,
Um Monstro que de início não abre sua capa, que mostra apenas
Para assustar, talvez… era sim, também para prender
Naquela ânsia por desgraçar,
A querer tomar um Mendes das mãos de um Mãe que mal podia ver,
E Mazda estava
Lá, apenas a testemunhar, fraco com sua mão direita caída
No leito de sua vestimenta
Que se fundia na imagem trazida
Pelos olhos vermelhos de um Monstro a tingir a
Roupa de um santo, fazendo um véu vermelho a criar formas como num dito
A mostrar o poder de um Monstro que ditava e mostrava,
A fazer Mendes sentir:

“Ao início de um fim pacífico do dia
Poucas matas erguiam-se, despejando o som
De seus cativos.
Os campos, em seus interiores, traziam
Um denso e solitário espaço silencioso
Em que saíam, cintilantes por entre os gigantes rochosos e as rachaduras
Da secura, algumas línguas de fogo solar.
Vieram as réstias, últimas, para abrandar a
Profundidade do pano escuro daquelas matas ao redor
De um leito vazio, na quase chuva iniciada, por um fim nascente
Do progresso.

Havia uma tristeza feliz naquele cemitério de solo magro,
Onde era possível ver suas ossadas de poder, enraizadas,
Às margens da corrente adormecida, quase morta,
Mensageira constante do sangue daquele velho lar.
Batiam, sobras de luz do sol, com o vapor de
Poucos pingos que se mexiam para acordar, notívagos…
Destacava-se uma passagem cortante
Um rugido que assustava as poucas almas que restavam…
Um relâmpago descido a Terra, formador de baixas nuvens do atrito.”

As linhas sinuosas dos galhos,
Próximos a uma ave que emergia em fuga,
E que apontavam um caminho reto,
Surgiam, sobre a planície do novo deserto –
Pedras luminosas e derretidas pelo calor,
Que queimavam nas muralhas de onde se separavam.
No lado em que a noite já chegara,
Minúsculos corpos de carvão,
Invisíveis pela incrível destreza da escuridão das matas,
Uniam-se ao esquecimento
De umas poucas folhas caídas pelo leito lamacento.

Acima das dunas, daquelas formas
Que serpenteavam horizontalmente, uma paisagem.
Como um peçonhento… os feixes luminosos, quase nada,
Eram bifurcados na ponta.
O veneno há muito atingira, via-se a plantação despedaçada.”

Tão longe, na visão fornecida
Pela mais aguda das rochas, corria a lembrança,
Em vitalidade perdida pelo rio, dos sons pertencentes ao metabolismo das matas,
De quando a vegetação subordinava o deserto precoce.
A laceração fora perfeita, o antigo rio célere, temporário,
Olhara – antes de
Desaparecer no decorrer dos montes – para onde nascera.
Pedras imensas
Que perdiam unidade,
Em erosão criadora de formas adversas
Como a de duas lacunas em brasa,
Que exterminavam tudo o que viam.
Bem visionárias
Naquele deserto que fenecia.

Com a areia, pó sobrevivente e
Possuidor de algumas migalhas do que era vivo
Surgia o passado num rio que chorava,
Completamente sem lágrimas.
Suas águas
Eram perpétuas, a caídas daquelas nuvens pesadas…
Tinha seus olhos compridos ressecados,
Naquela fossa, outrora idênticos
Aos de uma águia, porém de percepção
Profunda voltada apenas para si,
Purificando, desviando os
Males da luz contra seus últimos suspiros 
Por entre os montes,
Diluídos cada vez mais
Numa aparência quase pacífica de colinas frágeis…
Não mais ameaçava a passagem de um futuro.
Agia a poeira do novo pio,
Do pássaro metálico
Com suas rodas em fricção,
Erguendo e regendo as fragmentações
Sobreviventes, tanto da terra como da água.
As gotículas do rio ultrapassado serviam àquela força, inconscientes.

Campos de matas colossais no passado,
Com o fraco feixe iluminando
Um véu que se forma, de uma
Poeira originada pela
Desagregação dos
Corpos dos gigantes que falecem – muralha que desaba.
Cortina viva,
Avermelhada pelo pôr-do-sol, agitada pelo vento.”

Mendes acorda, e vê o Monstro com suas entranhas a mostra, e não
As quer ver, mas a visão empurra os seus olhos, a mostrar, ao menos,
Murilo e Quaresma, e Mendes queda-se quase aos prantos, perdido,
Ao ver seus dois mestres escravizados por um Monstro,
Do que não havia jeito.
Mas os dois não eram os mesmos, iam mudando de forma,
E tão diferenciados fitavam Mendes, e o Monstro resolve falar em seu tom,
Num falso idioma, mas se faz entender, grosseiramente,
Exalando um hálito de uma
Gélida catinga, que congelava os pulmões de um Mendes a
Não poder mais cantar, nem falar.
Um terremoto que diz:

“Olhe bem para os teus juízes!”

Os traços daquelas formas eram para Mendes irreconhecíveis,
Eram criaturas feias no que representavam,
Que o fitavam naqueles olhos de olhares frios, globos cadavéricos.
O terremoto retorna:

“Não acredite, se assim desejas.
Mas fostes tu, que se diz pertencente à
Grande Nação Humana, que me criaste enquanto símbolo dessa mesma Nação;
Fostes tu, como povos num, centrados em ti,
O criador da embolia que represento
Nas veias de teu povo, formação de povos cauterizados,
De mil feiuras costuradas em meu rosto!
Os dois são elementos de fora, capazes de te julgar…”

Mendes quase reconhece uma tentativa de sorriso, e o Monstro retorna num tremor:

“Vejas, assim por último, o meu rosto sem máscaras,
De alguma coisa de um pulsar
Que se faz mais bem expresso por uma única máscara que é a do teu rosto!”

E Mendes queda-se numa tonteira humilhante, e sua urina funde-se ao sangue
Carregado por quem não fez merecer, e vê-se como num espelho, como
Naquele d’antes, que vira, vê-se um só com todos os entes que lhe auxiliaram,
Vê-se como igual, vê-se idêntico, vê-se na sua totalidade como o Monstro,
Vê-se na tontura que roda, no furacão que é, vê Mazda transfigurar-se num
Sem Nome mortificado, vê os dois juízes dizerem CULPADO com a cabeça, vê
Os fantasmas desaparecerem, e sente-se como um pedaço,
Na máscara que expressa
Melhor a verdade, de um Inominado que é ele mesmo, dividido desde o início,
Acometido por delírios como quando encontrou o Braz, como quando
Começara, quando uma parte sua começara a desconfiar, e a sua totalidade
A não aceitar…
Mendes fora levado ao topo… O vilão era ele! Ele mesmo!
E tinha de mudar,
Mendes vai escorregando, como uma peste que merece cair!
E vai ainda vendo, rodando, em sua queda,
Quebra-se em mil pedaços, vai-se quebrando na queda constante
Nos vários chãos de uma escada,
Vendo as torres Eira e Moura, dois olhos! – quando como um Mendes;
Sumindo numa aniquilação que o captura, e volta sempre até se quedar.
Vê o motivo de seu martírio no Grande Rio que Seguia,
Vê sua terra de mentira!
E chora, e vive permanentemente nos pingos que antes umedeciam
As bordas de uma tenda!
Cai Monstro, volta ao Nada!
Cai Mendes das terras perfumadas de um Quaresma
Que o julgara e o condenara, era a consciência do onipotente solitário,
Do Trovador em totalidade, na máscara que expressa melhor um Sem Nome
Que quer ter nome!

Mas a Mãe, pobre Mãe, perdoava-o sempre, mesmo com todas
As tempestades vingativas, pela destruição de uma terra,
Causada pela nação que melhor representava um Mendes,
Única juíza a perdoá-lo, e daria mais uma chance a ele,
Sempre o perdoaria, sangue do seu sangue, seu filho!
E a terra agarra a forma morta de um Mendes de Nenhuma Vocação,
E a viola, máscara da própria Mãe, converte-se em pura Trova, num
Canto silencioso, num ninar gracioso, era a mesma viola,
A arma arqueada, dos fios do cabelo da própria Mãe.

Uma parte de um Mendes vive em algum lugar no passado, nas
Paredes de uma nostalgia, como fantasma habitante de uma ilha,
Nas máscaras necessárias para uma sobrevivência, conhecendo as
Entranhas daquela banha de um Monstro que era ele mesmo,
Cai esta parte num subconsciente, por onde viajaria Mendes,
Em busca do Páralo que o salvaria;
A outra parte é o que é maior que a máscara, é o arco do pescoço
A ser colocado na guilhotina,
É a grande nação a ressurgir, são construções caídas
Pela terra, do pó ao pó,
São prédios, são rios, são episódios, são vidas,
São idades idas, são saudades, são guerras, são dores, são odores antigos,
São versos sem métrica, poesia sem versificação…
Que alargam as bordas que comprimem o rio,
São pedaços, são sementes, vistos em mil olhos, comidos
Por um poder avassalador que aniquila um Mendes que não é mais,
E o vento, junção de ventos, é bondoso, leva
As sementes que engravidam a Grande Mãe Terra,
A que sempre perdoa e nunca se arrepende,
A que nunca morre, pois é viva na parte humana
Que ainda vive.
E é naquele momento que o enigma ressurge em sua totalidade,
Avança a águia por uma selva, ave que engole as cinzas,
E lá embaixo, um cão passa, com suas várias cabeças,
E come o resto, na resolução do enigma, não um enigma,
Mas uma profecia de algo apenas visto
Nas águas, nos olhos do Grande Rio que Seguia, agora derrubado,
Com o leito povoado por novas formas que um dia surgiriam. 


FIM

Autor: João Batista Firmino Júnior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário